quarta-feira, 19 de maio de 2010

noite adentro




Contando os minutos

como quem costura

uma a uma

miçangas de uma veste

que logo vai brilhar

em um encontro anunciado


Subitamente

o fio se quebra

tudo cai

desfaz-se

sem explicação alguma


E os minutos pesam

como bate-estacas

a bater

a doer

a afundar

a esmagar

Noite adentro

e por toda ela

e além dela


Meu Deus, que provação é essa?

Provas de amor precisam ser assim?

tão demoradas

tão indecisas


De onde mesmo vem a força?

Hoje já não sei mais

nem se ela existe

apesar de especialmente precisada


Que dor imensa

essa que não cessa

que fardo inerte

essa espera


De mão atadas

faminto

quase sem poder ir adiante

vazio

frio


Ela, a espera

Algoz

não se encerra

nem dá trégua

continua castigando

machucando

Noite adentro

e por toda ela

e além dela


Só me restam as palavras

por onde vazam os sentimentos

mas não trazem

a calma

a confiança

a esperança

a sua voz

nem você


Então pra quê elas?

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