sexta-feira, 21 de maio de 2010

simples mente


[imagem: Rafael Fraga]


Andar a pé tem suas vantagens.


Outro dia de manhã, voltando da faculdade, depois de uma chuva típica de Fortaleza daquelas que anuncia o desmanche do céu em água e acaba em quinze minutos, na Santos Dumont, quase esquina com Dom Manuel, encontro caído na calçada um passarinho, assim identifiquei.


Era miúdo, cabia na palma da mão. Aproximei-me, ele estava estático com a barriga voltada pra cima e pensei não ter mais vida, mesmo assim, baixei e o peguei. Só aí pude perceber que além de vivo, era um beija flor... uma das coisas mais belas que pude ter nas mãos. Verde metálico tornava-se furta-cor ao trocar de ângulo, o bico de um pretume fosco, parecia um plástico muito delicado, caprichosamente esculpido.


Ele se tremia todo, sem se mexer. Provavelmente havia caído com o peso da chuva em sua plumagem.


Pensei: o que faço agora? Cheguei a direcionar a pergunta ao alto, ao autor de tão linda criatura. Nada de resposta, só a vontade de levá-lo comigo. E assim o fiz, envolvido na minha mão ele foi até o centro da cidade, nesse dia precisei comprar uma rosa para alguém de longe que estava para chegar.


Fomos nós. Eu, preocupadíssimo dele dar seu derradeiro suspiro ali mesmo na minha mão, ele, dormindo, tranqüilo, confortável como em seu próprio ninho. Vez em quando eu dava uma mexida pra garantir que ele já não tinha ido, aí eu olhava bem no seu olho minúsculo e ele olhava pra mim também, certamente assustado, já que meu não é lá muito pequeno.


Mas enfim, criou-se ali uma relação de confiança, ele não me bicaria e eu faria alguma coisa por ele, mesmo sem saber o que.


Chegando em casa, peguei um musgo que usava para artesanato e preparei uma “cama”. Coloquei ao lado um pequeno frasco cheio de água com açúcar (não é néctar, mas já é alguma coisa). Nenhuma reação dele. Resolvi insistir colocando o frasco em contato com o seu bico. Eis que um filete transparente, quase inexistente, começa a sorver com desespero a doce solução.


Ainda sem saber o que ia acontecer, deixei-o quieto e fui colocar a rosa na água. Quando retorno ele não mais estava. Procurei-o agoniado! Por um momento achei que havia voado pela janela, mas não, estava embaixo da mesa, caído novamente. Tentou voar e não conseguiu.


Por medida de segurança para ele, coloquei uma lixeira aramada por cima de sua cama, o que evitaria novas tentativas mal sucedidas.


Fui rapidamente ao supermercado e quando retornei, ele estava com as patas presas na trama da lixeira, como um preso clamando por soltura.


Tudo bem! Vamos tentar mais uma vez, dessa vez juntos.


Peguei-o com cuidado e o coloquei em um de meus dedos, no que ele segurou com firmeza, senti que estava melhor. Confiante, mas com um aperto no coração, tranquilamente estendi o braço através da janela, moro no terceiro andar de um prédio, não forcei nada, não mexi o braço, nem mesmo o dedo.


Uma leve brisa veio e nesse momento ele foi junto, impressionantemente ligeiro, voou pelo céu com toda sua vitalidade, em um rasgo de liberdade, indo de encontro a algum néctar verdadeiro.


Como é bela a natureza!




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