segunda-feira, 28 de junho de 2010

suspenso



Que tempo é esse?
Por mais que voe
é parado
petrificado

Por que não seguir em frente?
Por que não sentir?
Por que não esperar?

Ainda que a dor cresça
ainda que o tempo envelheça
ainda assim
o amor sustenta
apesar de sustado
no limbo de um tempo infinito

Aqui só a escoadura
de um silêncio que não cala
de uma dor à pele
de um fogo contido
de uma cachoeira ininterrupta

Estar aqui ou ali?
Que diferença faz?
Nenhuma sem você

E o mêdo se instala
e o tempo novamente para
Serei apenas alguém com quem contar?
Alguém na sala de estar?
Apenas alguém?
Quem?
Nem eu sei

Mais um dia a menos
em uma existência sem sentido
sem o seu sentimento
Amanhã?
Mais um dia a menos...
parado
petrificado

direto da cafeteria

“Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”

José Saramago

terça-feira, 15 de junho de 2010

sem título, com pesar

companheira de realidade
dolorido desejo de algo
desejo de vida.


sábado, 12 de junho de 2010

esse dia



dia sem flor
outrora de semente
que hoje sente
e fala
e ama
e cresce
muito rápido até

dia sem cor
de outra forma
não seria
e seria
se hoje já fosse vida
em minha vida
na sua vida

dia, esse dia
um dia meu
um dia seu
dia nosso
nosso dia

dia de troca
não mais
fora no passado
no presente
sem presente

diausência
diarragaido
dianestesiado
diaflitivo
diadensado
diamuado

dia iniciado
não querido em vão
arrastado
interminável

dia de palavras
pensadas
não ditas
benditas
embargadas
proibidas

dia de sentimentos
pujantes e contidos
proibidos
mas percebidos
evitando doê-los
a saída, fingí-los
será que percebi errado de novo?
será que alguma vez percebi errado?

não!
esse dia não mais aqui está
e nem posso esperar
nem sei se virá...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

big bang

O terceiro livro que ilustrei também foi um dos mais difícéis de resolver, pois fala de um assunto do qual não tenho referências visuais. O início das coisas.

Fernando Paixão, em ritmo de cordel, nos leva a um passado longínquo do qual não lembramos, só ouvimos falar.

Big Bang em Cordel leva esse nome em sua primeira tiragem, já na segunda edição, e já deve estar sendo impressa, se chama Como Tudo Começou.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Crônicas de Martha



Em meio a um momento não muito fácil, textos são lidos embebidos do poder de fazer o tempo parar, uma trégua para o que há de belo, de sutil, de delicado... já os sinto falta.

Não é a primeira vez que tenho contato com o texto de Martha Medeiros, semestre passado estudamos o Divã, aquele que virou filme, porém, desde então não li mais nada dela. Nesta segunda, no entanto, não li mas ouvi atentamnte algumas das crônicas do livro Doidas e Santas.

Em seguida, uma das que mais gostei.

Obrigada por insistir

Até o mais seguro dos homens e a mais confiante das mulheres já passaram por um momento de hesitação, por dúvidas enormes e também dúvidas mirins, que talvez nem merecessem ser chamadas de dúvidas, de tão pequenas. Vácuos, seria melhor dizer. Devo ir a esse jantar, mesmo sabendo que a dona da casa não me conhece bem? Será que tiro o dinheiro do banco e invisto nessa loucura? Devo mandar um e-mail pedindo desculpas pela minha negligência? Nessa hora, precisamos de um empurrãozinho.

E é aos empurradores que dedico esta crônica, a todos aqueles que testemunham os titubeios alheios e dizem: vá em frente!

"Obrigada por insistir para que eu pintasse, escrevesse, atuasse, obrigada por perceber em mim um talento que minha autocrítica jamais permitiria que se desenvolvesse."

"Obrigada por insistir para que eu fosse visitar meu pai no hospital, eu não me perdoaria se não o tivesse visto e falado com ele uma última vez, eu não teria idose continuasse sendo regido apenas pela minha teimosia e pelo meu orgulho."

"Obrigada por insistir para que eu conhecesse Veneza, do contrário eu ficaria para sempre fugindo de lugares turísticos e me considerando muito esperto e com isso teria deixado de conhecer a cidade mais surreal e encantadora que meus olhos já viram."

"Obrigada por insistir para que eu fizesse o exame médico, para que eu não fosse covarde diante das minhas 15 fragilidades, só assim pude descobrir o que trago no corpo e tratá-lo a tempo. Não fosse por você, eu teria deixado este caroço crescer no meu pescoço e me engolir com medo e tudo."

"Obrigada por insistir para eu voltar pra você, para eu deixar de ser adolescente e aceitar uma vida a dois, uma família, uma serenidade que eu não suspeitava. Eu não sabia que amava tanto você e que havia lhe dado boas pistas sobre isso, como é que você soube antes de mim?"

"Obrigada por insistir para que eu deixasse você, para que eu fosse seguir minha vida, obrigada pela sua confiança de que seríamos melhores amigos do que amantes, eu estava presa a uma condição social que eu pensava que me favorecia, mas nada me favorece mais do que esta liberdade para a qual você, que me conhece melhor do que eu mesma, apresentou-me como saída."

"Obrigada por insistir para que eu não fosse àquela festa, eu não teria agüentado ver os dois juntos, eu não teria aturado, eu não evitaria outro escândalo, obrigada por ter ficado segurando minha mão e ter trancado minha porta."

"Obrigada por insistir para eu cortar o cabelo, obrigada por insistir para eu dançar com você, obrigada por insistir para eu voltar a estudar, obrigada por insistir para eu não tirar o bebê, obrigada por insistir para eu fazer aquele teste, obrigada por insistir para eu me tratar."

Em tempos em que quase ninguém se olha nos olhos, em que a maioria das pessoas pouco se interessa pelo que não lhes diz respeito, só mesmo agradecendo àqueles que percebem nossas descrenças, indecisões, suspeitas, tudo o que nos paralisa, e gastam um pouco da sua energia conosco, insistindo.

23 de outubro de 2005

segunda-feira, 7 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

mais um dia...



de volta a realidade
"estamos cá dentro de nós, sós..."

novos poetas e um recém chegado


[imagem: Gustav Klint]

Hoje tive uma grata surpresa, logo após cair o novo dia embaixo de um lindo flamboyant vermelho. Recebi o privilégio de participar de uma roda de poesia que estavam presentes Carlos Drummond de Andrade, Manuel de Barros, Roberto Evangelista e Tiago de Melo, claro que em poesias lindamente proferidas.

Como já comentei por aqui, estou ainda debruçado sobre um livro com as poesias de Drummond e hoje foram lidas duas poesias que li a pouquíssimos dias: Retrato de Família e Cor. Um momento ímpar, no qual também foi falado um pouco sobre a vida desse grande mineiro. Melhor que falar dele, é ouvi-lo em seus versos:

O tempo passa? Não passa

"O tempo passa? Não passa no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça do amor, florindo em canção.
O tempo nos aproxima cada vez mais,
nos reduza um só verso e uma rima de mãos e olhos, na luz.
Não há tempo consumido nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido de amor e tempo de amar
O meu tempo e o teu, amada, transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada, amar é o sumo da vida.
São mitos de calendário tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário é um nascer toda hora.
E nosso amor, que brotou do tempo,
não tem idade pois só quem ama escutou o apelo da eternidade."



Continuando, belos poemas de um novo poeta, novo para mim pois, na verdade, é outro expoente da poesia brasileira. Trata-se de Manoel de Barros que se alimenta da natureza como sua inspiração. Segue um trechinho de uma das suas composições:

Mundo Pequeno
(do livro "O Livro das Ignorãças")

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.


Em seguida, Roberto Evangelista. Um grande artista que tem um trabalho primoroso com Haicais.

"No espelho das águas
a nave solar mergulha
flamejante.
"

Por fim, Thiago de Mello. Como pude passar tanto tempo sem conhecê-lo? Fiquei estasiadamente impressionado ao ouvir o texto que se segue:

Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.


sem mais palavras...



terça-feira, 1 de junho de 2010

certas palavras



Certa vez ouvi que um poeta falou, de algumas palavras serem em si, a própria poesia e citou o exemplo da palavra MARAVILHA.

O mar
O ar
A ave
A ilha.